Arqueologia

Estudando Arqueologia no exterior: meus passos do Brasil para a Inglaterra

Oi. Meu nome é João Carlos Moreno de Sousa. Mas pode me chamar de JuCa. Sou arqueólogo. Me formei em 2010 no curso da PUC Goiás. Depois disso ainda fiz um mestrado, também em arqueologia, na USP. E desde 2015 faço o doutorado no Museu Nacional (UFRJ). Na verdade, é um doutorado-sanduíche.

O nome é engraçado, eu sei. Mas não tem nada a ver com comida. O doutorado-sanduíche tem esse nome porque, diferente do doutorado comum no qual você realiza seus estudos e atividades ligadas a uma mesma universidade, você realiza uma parte (o meio) do seu doutorado em outra universidade. E nem precisa ser do mesmo país. De fato, acho que a maioria busca fazer fora do Brasil, em busca de aprendizados que não podemos obter aqui ainda. O período do sanduíche varia dependendo dos objetivos do estudante na outra instituição, e da bolsa de estudos fornecida. Mas o máximo é um ano.

No meu caso, eu escolhi fazer meu doutorado sanduíche na University of Exeter, Inglaterra. E cá estou eu desde o final de Março de 2017. Ficarei aqui até final de Agosto, num total de cinco meses. Tem sido uma ótima experiência até agora, e ainda falta mais da metade para acabar!


Eu em um laboratório de Arqueologia Experimental.

Se bem que... todo o processo para eu vir para cá é de longa data... Tudo começou em 2013, quando eu estava terminando o mestrado. Meu orientador, o professor Dr. Astolfo Araujo, me disse que o Bruce Bradley, professor de arqueologia experimental e pré-história na University of Exeter, tinha ficado interessado em mim como um futuro aluno de doutorado. O professor Astolfo me falou das vantagens de ser orientando do professor Bruce, de estudar na Inglaterra, do peso no currículo, e da grande oportunidade que isso seria. Me animei demais!

Eu já havia conhecido o Bruce Bradley em 2011, numa visita que ele havia feito no inicio do meu mestrado, oferecendo uma oficina de produção de artefatos de pedra lascada (minha especialidade). Fiquei impressionado logo de cara com o conhecimento dele no assunto, assim como em suas habilidades para produzir artefatos que não são apenas bonitinhos, mas bem complexos nas maneiras de se fazer. Pra quem não sabe quem é Bruce Bradley, ele é um dos melhores lascadores do mundo (o melhor que eu já vi, na verdade), o maior especialistas em tecnologia das indústrias Clovis na América do Norte e Solutreense na Europa, e um dos proponentes da hipótese do movimento de povos entre a Europa e a América do Norte há mais de 15 mil anos atrás.


Episódio do Arqueologia em Ação com o professor Bruce.

Assim que eu terminei o mestrado já comecei a correr atrás de me qualificar para uma bolsa de doutorado na Inglaterra, começando pelo mais básico: um comprovante de conhecimentos de língua inglesa. A University of Exeter era bem rígida, e não aceita qualquer tipo de comprovante. A única opção que eu tive foi tentar um exame chamado IELTS. 

Infelizmente, meu inglês estava muito abaixo do esperado. Mas também, eu nunca havia passado nenhum tempo fora do país falando só em inglês, nunca havia escrito um texto completo em inglês, e só fiz um ano de curso de inglês básico na infância... Eu não podia esperar que eu tivesse aprendendo inglês da forma certa só a partir de músicas, filmes, séries e games vindos da gringa, né? Gastei uma grana alta para fazer esse exame e não consegui. Fiquei chateado. Afinal, queria sair de São Paulo. 

Acabei prestando a prova de doutorado na USP mesmo, só que sem vontade. Apesar de gostar demais do meu orientador, nunca me senti “em casa” no curso da USP. Nem na cidade, que faz muito frio e chuva pro meu gosto – lógico, ante disso eu passei a vida toda morando em diferentes cidades do cerrado brasileiro. E no final das contas também não passei no doutorado da USP, mesmo já tendo sido aluno do mestrado e tendo feito uma prova que era razoavelmente fácil para alguém que já é um arqueólogo formado. Acabei ficando ainda mais sem vontade de tentar lá. Enfim...

Eis que me surge uma nova oportunidade de doutorado, dessa vez no Museu Nacional da UFRJ, sob orientação da professora Dra. Mercedes Okumura, que eu conheci na mesma época que conheci o professor Bruce. Ela também era (e ainda é) colaboradora em pesquisas com o Bruce e o Astolfo. Nem pensei duas vezes! Fui, prestei as provas e passei. No começo ainda ficava meio angustiado em ter que me mudar para Rio de Janeiro, pois já tinha estado lá de viagem e não havia gostado. Mas com o tempo acabei gostando da cidade (coisa que não aconteceu em SP... infelizmente).

Quando comecei o doutorado no Museu Nacional, meu projeto era bem mais humilde que o do mestrado. No mestrado analisei três coleções de vestígios líticos de sítios paleoíndios (ou seja, dos mais antigos do continente americano) e comparei-os tecnologicamente a fim de buscar caracterizar as três principais indústrias de pedra lascada brasileiras entre 13 mil e 8 mil anos atrás. 

Já no doutorado, o objetivo era analisar apenas uma coleção, de um único sítio do interior do Paraná, a fim de verificar se a indústria mudou ao longo de 10 mil anos. O motivo do meu projeto ter apenas um sítio era puramente porque só haviam me permitido acesso a um dos sítios que eu gostaria de estudar... Até aquele momento! Meu projeto cresceu, e agora eu tenho quatro sítios dentro do meu projeto de pesquisa, sendo que em dois deles eu já fiz as análises (para saber mais sobre o meu projeto clique aqui).

Fazer um doutorado-sanduíche já era uma das metas que eu estipulei comigo mesmo ainda antes de iniciar o doutorado normal. Eu lembro que quando eu compareci na entrevista para ingressar no doutorado me perguntaram o motivo de eu ter planejado um cronograma para “apenas” três anos. Eu respondi “Eu sei que consigo terminar esse projeto em três anos, mesmo se eu conseguir acesso a uma segunda coleção. Afinal, meu projeto de mestrado tinha três coleções estudadas, foi planejado para dois anos e meio, e foi cumprido”. 

A banca ainda retrucou explicando que no doutorado é diferente, tem mais obrigações, e tem muita gente que faz os quatro anos regulares e ainda pede por mais uns meses (ou anos) de prorrogação. Eu insisti, e disse que eu tinha certeza que conseguiria fazer em três anos, e que eu só faria os quatro anos caso eu conseguisse uma bolsa para doutorado-sanduíche. A coordenadora da banca mudou a expressão dela na hora. Parecia mais amigável de repente. Perguntou, como que para ter certeza do que eu estava falando, “Mas você está planejando fazer um doutorado-sanduíche?”. E eu disse “estou”. Falei que havia tentado o doutorado pleno na Inglaterra antes, mas que não desisti de ir para lá e, portanto, tentaria o sanduíche com o professor Bruce Bradley.


Resultado das minhas atividades no laboratório de Arqueologia Experimental.

Essa cena eu tenho muito bem guardada na minha memória. Toda a banca com uma expressão de aprovação sobre o que eu havia dito, e a coordenadora falando com uma expressão muito simpática “Fico muito feliz que você tenha mencionado isso. Pode ter certeza que isso pesará na nossa decisão de ter você como nosso aluno”. Cara... como eu fiquei feliz.

Um ano depois, já no final de 2015, eu havia feito minha inscrição no CNPq para concorrer a uma bolsa de doutorado-sanduíche na University of Exeter. Havia conseguido todos os documentos necessários. Carta da orientadora, carta do orientador no exterior, carta do diretor da faculdade de arqueologia em Exeter, da diretora do departamento no Museu Nacional, notas de exames de inglês (nem era obrigado, mas fiz assim mesmo), etc. O resultado sairia em três meses! Baita ansiedade! 

Três meses depois... nada. Quatro meses, e nada. 

Eu acessava o sistema on-line do CNPq quase que diariamente por cinco meses, e tudo que aparecia escrito era “processo em análise”. E eu só pensava, “quem demora 5 meses para ler um projeto de 20 paginas???” E o pior é que nesse meio tempo várias noticias me deixavam menos otimista. Estudantes no exterior com bolsas canceladas tendo eu voltar para o Brasil sem completar os estudos lá fora, noticias do CNPq dizendo que não iria mais abrir editais de bolsas pois não tinha dinheiro, o Brasil passando por uma crise econômica cada vez pior, etc. 

Eu ainda pensava “ufa, meu pedido foi enviado antes de pararem de aceitar pedidos de bolsa”. Ah, JuCa, sabe de anda inocente.

Toda a banca com uma expressão de aprovação sobre o que eu havia dito, e a coordenadora falando com uma expressão muito simpática “Fico muito feliz que você tenha mencionado isso. Pode ter certeza que isso pesará na nossa decisão de ter você como nosso aluno”. Cara... como eu fiquei feliz.

Em abril de 2016 o CNPq finalmente me envia um parecer. Meu projeto sequer havia sido encaminhado para análise, pois já não havia mais dinheiro para financiar nenhum estudante... E foi assim que acabaram minhas esperanças para estudar com o Bruce Bradley na Inglaterra... Quando eu contei isso pro Bruce ele também ficou chateado, principalmente porque ele estava prestes a se aposentar, e eu seria um dos últimos alunos dele. Tanto ele quanto meus outros orientadores, Mercedes e Astolfo, ficaram chateados e tentaram me animar dizendo que não faltariam oportunidades de aprender mais com o Bruce quando ele viesse novamente para o Brasil. Isso era verdade. Mas não tinha como não ficar desanimado, né? Até um tanto revoltado, pensando “pra que abrir um edital se você não tem dinheiro pra pagar o projeto e nem sequer vai analisar ele?”. 

Hoje eu entendo que é possível que o próprio CNPq não havia previsto a falta de dinheiro.


Foto de campo; Sítio Arqueológico Bastos (2016). Atrás: Nina, Letícia Correa e Elisa Van Veldhuizen; Na frente: eu, Bruce Bradley, Mercedes Okumura e Astolfo Araujo.

Uma luz no fim do túnel surgiu três meses depois, em julho de 2016. Todos nós (Astolfo, Bruce, Mercedes, eu, e outros colegas) estávamos realizando uma escavação arqueológica no interior de São Paulo. Numa noite qualquer desse período minha querida orientadora Mercedes vem com a noticia: “a CAPES acabou de lançar um edital  pra doutorado-sanduíche”. Fui verificar correndo. 

O processo era bem parecido com o do CNPq, então eu já tinha a maioria dos documentos em mãos. De acordo com o edital eu não poderia começar as atividades no exterior antes de Março de 2017. O professor Bruce se aposentaria no final de Agosto. Isso me daria apenas cinco meses para ser orientado por ele na Inglaterra. Mesmo que fossem só três eu já estava feliz. E de novo lá fui eu correr atrás de conseguir todos os documentos. 

Quase perdi a oportunidade de me inscrever por conta de um erro de comunicação dentro do meu próprio departamento da universidade... Eu tinha que entregar uns documentos pra eles, mas só me avisaram qual era a data final pra envio de alguns documentos depois que a data havia passado, e aí me deram uns dois dias de prazo pra arranjar tudo e enviar pra ele. Sorte a minha que eu já tinha esses documentos em mãos graças a minha tentativa frustrada anterior com o CNPq. Caso contrário, não teria dado tempo. Também serve como uma lição de não deixar para arranjar essas coisas de última hora.

Tive que esperar até Fevereiro de 2017 pelo resultado, mas as expectativas estavam bem baixas... Afinal, eu já estava bem frustrado com todas as tentativas fracassadas de conseguir essa oportunidade ser orientado pelo professor Bruce. E depois dessa, não haveria mais chances, pois, o Bruce se aposentaria. Mas EU CONSEGUI! Meu projeto foi aprovado!

No final de Março deste ano vim pra University of Exeter, e cá estou eu sendo orientado pelo professor Bruce Bradley, aprendendo cada vez mais sobre os métodos de produção dos mais diversos tipos de artefatos de pedra lascada, mas com um foco maior em tentar replicar as pontas de lança e flecha que eu estou estudando no meu projeto de pesquisa atual. A experiência está sendo ótima! E compensa o friozinho chato do país (sim, frio, sendo que o inverno aqui já acabou...). 

Desde que eu cheguei tive a oportunidade de aperfeiçoar minhas habilidades de produção de peças bifaciais, principalmente por utilizar materiais que eu nunca tive oportunidade em todos esses anos no Brasil, como rochas de altíssima qualidade (como arenito silicificado termicamente tratado, sílex e obsidiana, por exemplo) e percutores feitos sobre chifres de cervídeos e alces. Aprendi a atirar lanças com um atlatl.


Modelo de um atlatl utilizado para dar mais impulso a uma lança.

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Minha vez

Também tive a oportunidade de participar em viagens de campo para coleta de matérias primas, e até mesmo uma viagem para Cardiff, capital do País de Gales, para visitarmos um museu a céu aberto e analisarmos algumas pontas impressionantemente finas e complexas. Tanto é que o professor Bruce está a duas semanas tentando replicar essas pontas através das nossas atividades experimentais, mas não consegue fazer igual. As únicas que ele conseguiu replicar da maneira certa acabaram quebrando um pouco antes de ficarem prontas. Ou seja, se até um dos caras mais expert do planeta está tendo dificuldades em fazer essas réplicas, então é porque a coisa não é fácil meeeesmo.


Analisando pontas bifaciais galesas. 

E ainda tem mais 3 meses de atividades planejadas, incluindo aprender a replicar as pontas brasileiras que estou analisando no meu projeto, aprender a realizar uns métodos de lascamento que chamamos de “debitagem laminar” e “debitagem levallois”. Também estamos com viagem marcada para a Dinamarca, para passarmos uma semana inteira num museu a céu aberto realizando todo o tipo de atividade experimental, replicando o cotidiano da vida dos nossos ancestrais há milhares de anos atrás (talvez até mesmo tendo que usar os trajes típicos... pois é). Ninguém vai poder falar que eu não aprendi nada, né?

Todas essas experiências que eu estou tendo, esse aprendizado, essa excelente oportunidade, não é algo que simplesmente cai no colo de todos os estudantes. Eu tive que correr atrás, me estressar, me preparar, falhar, tentar, me estressar mais, falhar de novo, e continuar tentando até conseguir. E todo dia vale mais a pena! O clima aqui pode ser ruim, a comida sem sal e sem graça, tudo é caro (apesar de que o dinheiro da bolsa é mais que suficiente), não existe pastel e caldo de cana... Mas o aprendizado, ah... Isso eu nunca teria no Brasil. Não nesse nível. E eu espero conseguir retransmitir isso para os meus colegas quando eu retornar ao Brasil. Arqueologia experimental é legal (e importante) demais! Principalmente as pedras lascadas, hehe.


Para quem tiver interesse em acompanhar mais minhas aventuras na Inglaterra, tanto com relação às atividades arqueológicas quanto aos meus passeios pelo país, é só me seguir no Instagram, que tá cheio de fotos e vídeos. Clique aqui para conferir



João Carlos Moreno de Sousa: Arqueólogo especialista em análise de artefatos líticos. Atualmente faz doutorado também em Arqueologia no Museu Nacional do Rio de Janeiro. É administrador do Arqueologia e Pré-história.

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